EDUARDO MATUISKI - Agora eu pego!
ARTIGO
Do acervo · publicada originalmente em 12 de agosto de 2020
Fonte: EDUARDO MATUISKI
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Mais rápido do que uma bala, mais poderoso do que uma locomotiva, capaz de saltar arranha-céus com um único impulso! Superman? Não! Com suas habilidades esportivas destronou o maior jogador do mundo. Está presente na bola, no campo, nas bandeiras de escanteio, nas traves, nas redes, na vestimenta e no apito do juiz, impregnado nos cartões amarelo e vermelho, nas arquibancadas, nos uniformes dos atletas. Nunca marcou um gol, mas deixou o CR7 para trás. Nunca fez propaganda de shampoo nem de desodorante, mas está presente nos cabelos e nas axilas de muitos. Não precisou de nenhum marketing para se transformar no C19, a figura mais falada no apagar das luzes dos anos 20 do século XXI.
Seu passaporte é vitalício. Não conhece fronteiras e já deu a volta ao mundo em menos de 80 dias. Não tem preferência pelo meio de transporte. Usa avião, navio, balão, trem, metrô, ônibus, moto, bicicleta, charrete, carroça, patinete, skate, patins. Gosta muito da área da educação. Mesmo não tendo a necessidade de se amamentar, comparece nas creches, nos berçários, no Prezinho, no Ensino Fundamental, no Ensino Médio, frequenta escola pública ou privada, faz faculdade, mestrado, doutorado, MBA, pós-doc, sendo muito letrado, mas não precisando defender tese ou fazer pesquisa porque ele é o objeto da pesquisa.
Tem enorme preferência pela área da saúde. Visita Unidades Básicas, ambulâncias, emergências, leitos hospitalares, UTIs, deixando todos em pânico. Está no ar, na terra e no mar, nos lagos, lagoas, rios, riachos, ribeirões, nascentes e até mesmo no esgoto. Gosta de supermercados, shoppings, restaurantes, bares, lanchonetes, estádios, cinemas, teatros, ou seja, locais onde pode se “enturmar” com enorme facilidade. Eclético, marca presença nos carrinhos, gôndolas, produtos, corrimãos, peças sanitárias, vidros, espelhos, toalhas, talheres, mesas e cadeiras, pratos e xícaras, uniformes, chapéus, sombrinhas e guarda-chuvas, bolsas, gravatas, embalagens, capacetes, luvas, meias, óculos, canetas, agendas, cartões de visita.
Tem predileção pelos escritórios, salões de beleza, barbearias, academias, instituições financeiras, repartições públicas, e o que o mais o atrai são os contatos físicos: adora o abraço, o carinho, o aconchego, o beijo, ou seja, os gestos que unem as pessoas que se gostam. Não tem complexo de inferioridade por ser minúsculo, imperceptível, quase invisível, porque sua força devastadora, sua fama mundial e sua capacidade de dizimar pessoas, histórias, biografias e sonhos é estarrecedora.
No final de 2019 tínhamos ouvido falar dele, mas qual!? Nada significava. O tratamos com desprezo, não acreditamos que ele, de fato, existia; era uma narrativa que não merecia cuidado ou preocupação. Não lhe demos atenção. Governos não lhe deram importância. Machucado, desprezado, eis que ele mostrou a que veio. Agora que contamos quase 100 mil almas perdidas, 100 mil sonhos destruídos, 100 mil biografias, 100 mil irmãos e irmãs que deixaram 100 mil famílias desesperadas. Agora que contamos mais de 1.000 mortes/dia num platô que não aconteceu em nenhum outro país do mundo.
Agora que estamos na pior fase, estamos começando a baixar a guarda. Como diz a frase: liberou geral! Acabou o grupo de risco. Acabou a seletividade nos supermercados e no comércio. Idosos, gestantes, crianças e pessoas com comorbidade podem novamente, juntas, ir às compras. Bares e restaurantes, assim como outras atividades, voltarão com força total. Entende-se a necessidade de voltar a rodar a máquina da economia, compreende-se a importância dos empregos e dos salários, mas é a hora certa? Justifica-se o consumismo desenfreado? A aglomeração, ainda que minimizada pelos protocolos? A volta às escolas?
Se tivéssemos tido governança e atitudes sérias e enérgicas do Poder Central desde o início da pandemia, certamente estaríamos vivendo outro cenário e muito provavelmente não estaríamos chorando 100 mil mortes. O único que ganhou com essa desgovernança e falta de pulso foi o C19, que continuará à espreita nos lugares de costume, ou seja, em todos os lugares! Infelizmente, cabe a frase: quem viver, verá. Com toda essa abertura vai ficar difícil, para não dizer impossível, vencer o mal do século e, infelizmente, choraremos mais entes perdidos. A hora não é essa!
Eduardo Matuiski é advogado e professor do Immes
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