ARTIGO - O futuro do urbanismo de Matão
MARCELO MANCINI
Do acervo · publicada originalmente em 25 de agosto de 2020
Fonte: MARCELO MANCINI
· Leitura de 6 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Nossas cidades certamente não serão as mesmas após o distanciamento social imposto pela pandemia de 2020. Problemas já existentes ficaram mais evidentes, como a falta de espaços de lazer, de ciclovias, calçadas ruins, pouco tempo de travessia para pedestres, muitos carros nas ruas e falta de viabilidade e de subsídios nos transportes públicos, dentre outros velhos conhecidos desafios urbanos como enchentes e a busca por novas tecnologias. Neste cenário tão diferente, às vésperas das eleições municipais, convido a pensarmos sobre alguns importantes desafios para Matão nos próximos anos.
ESPAÇOS PARA PESSOAS
Todo lugar com movimento de pessoas é seguro por si só. A escritora Jane Jacobs, autora de importantes obras sobre urbanismo, chama isto de ‘olhos das ruas’, ou seja, quando há vitalidade nestes locais, as pessoas cuidam umas das outras e dos espaços públicos. São praças, parques, pontos de encontro, restaurantes, shoppings ou mesmo ruas fechadas ao trânsito de veículos. Várias cidades brasileiras fecham suas ruas aos finais de semana, chamando-as ‘ruas de lazer’, e nelas pode-se observar muitas pessoas caminhando, crianças brincando e andando de bicicleta. Nossa cidade carece destes espaços. Como exemplo, durante a interdição da Via Milcíades Bottura aos veículos para a realização de obras em julho, logo se observaram pessoas fazendo caminhadas, crianças andando de bicicleta e aproveitando os espaços. Tal prática faz com que os cidadãos se exercitem, tenham mais espaços recreativos, de encontro e de lazer.
Ao invés de fechar as calçadas de pedestres em frente a bares e restaurantes, muitas cidades têm criado os chamados parklets – deques com mesas que ocupam vagas de estacionamento de veículos. Tais espaços têm sido adotados no pós-pandemia para que as pessoas não fiquem em ambientes fechados e, como complemento, trazem maior vitalidade às ruas. Quanto melhor seria ocupar nossas ruas com espaços destinados às pessoas? Atualmente, elas são utilizadas por carros que trafegam em alta velocidade e ocupam preciosos metros quadrados urbanos para ficarem estacionados.
MAIS CICLOVIAS
Cidades brasileiras têm investido cada vez mais neste saudável modo de transporte, através de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e faixas compartilhadas. Dentre as condicionantes para se implantar uma via para ciclistas não se deve levar em conta só a meteorologia ou a topografia da cidade, mas a segurança dos ciclistas, sobretudo através da implantação das ciclovias (faixas exclusivas de bicicletas, com limitação lateral por obstáculos físicos). Toda cidade que fez este investimento viu seu número de ciclistas crescer e, por consequência, constatou uma melhora na saúde e qualidade de vida das pessoas.
Não faltam espaços nas vias de Matão para a instalação. Imagine os grandes canteiros centrais, já sombreados e iluminados, com ciclovias. Certamente atrairia para as bicicletas muitos motoristas de automóveis e motociclistas. Durante a pandemia, este modo de transporte tem se destacado ainda mais, por manter o distanciamento social e por ser sustentável – não só para o lazer, mas também para o trabalho. E não basta somente pintar as faixas vermelhas; é preciso que as ciclovias venham acompanhadas de ações de incentivo, para que as empresas adotem bicicletários e vestiários em sua estrutura.
TRANSPORTE
Se cada pessoa da cidade tivesse um carro, as largas ruas não seriam suficientes para comportar. Além disso, esta não é uma forma ambientalmente correta de se deslocar, muito menos pelo aspecto de saúde da população. Os gases gerados pelos automóveis, bem como a obesidade ocasionada pelo sedentarismo e os acidentes, geram grandes cifras no custo com saúde pública. Para que pensemos no futuro da cidade é preciso estruturá-la hoje, para termos um amanhã melhor e mais saudável.
Os planos diretores e planos de mobilidade são importantes oportunidades para que a cidade pense e projete seu futuro. Nestes planos é preciso pensar na estruturação de corredores de transporte público, nos traçados das ciclovias, vias preferenciais de pedestres e em como torná-los viáveis. Somente assim, no futuro não seremos tão dependentes de um único modo de transporte para se deslocar e a cidade será muito mais democrática, já que todas as classes sociais terão acesso a transportes de qualidade e poderão usufruir de um bom deslocamento por todo o espaço urbano.
ESPAÇO URBANO
No contexto urbano, desenvolvimento é diferente de crescimento. Não adianta expandir o território urbanizado e não suportar o custo da manutenção da infraestrutura gerada. Este é um modelo que não se sustenta. Desta forma, as vias se tornarão esburacadas, calçadas não terão qualidade e outros problemas se acumularão. Se a manutenção atual da infraestrutura já não é suficiente, imagine com a área urbana se expandindo a cada ano. Aumentar o espaço da cidade faz com que ela se torne cada vez mais dependente do automóvel. Não é preciso adensar para se ter maior qualidade no espaço urbano. É necessário parar de expandir e cuidar mais da área consolidada, ocupando os vazios urbanos e melhorando a infraestrutura para a cidade de fato se desenvolver.
PERMEABILIDADE
O maior problema natural que temos são as enchentes, que todo ano assolam a cidade. Tal problema ocorre pela excessiva impermeabilização do solo. Muitos municípios estão tentando se tornar mais permeáveis, criando jardins drenantes, incentivando que cada lote tenha sua própria área de absorção para não jogar toda água para a rua. Além disso, cada imóvel pode reaproveitar a água de chuva coletada para uso na descarga, rega de jardins e lavagem de calçadas. Os rios são despoluídos e seu entorno são áreas preservadas que formam grandes parques lineares e servem para o regime natural das águas em épocas de cheias.
SUSTENTABILIDADE
Uma cidade com menor impacto ambiental passa pelos conceitos citados nesta reflexão e por uma maior conectividade, podendo assim ser chamada de Cidade Inteligente. Tudo é monitorado: consumo de energia, emissão de esgoto, coleta de lixo, volume de chuvas, onde está o transporte público, melhores trajetos, dentre outros. Em suma, todos estes fatores somados e pequenas mudanças implantadas ao longo dos próximos anos e gestões municipais farão com que a cidade prospere em diversos aspectos, sobretudo na qualidade de vida urbana.
Importante que não incorramos nos problemas das cidades maiores e aprendamos com eles. É quase um paradoxo que em cidades pequenas e médias, aquelas onde seria o melhor lugar para se andar a pé e de bicicleta, só é possível se andar de carro! Isto se deve a um grande investimento no urbanismo voltado para o automóvel, que ocorreu nos últimos 50 anos. Assim como nossas cidades mudaram com o advento do automóvel, elas irão mudar de novo após a pandemia, desta vez em busca pela melhoria da qualidade de vida e da saúde das pessoas.
Tudo isso precisa estar refletido no Plano Diretor e no Plano de Mobilidade Urbana (este último ganhou prazo até abril de 2023 para ser executado). Se for feito um bom plano, com a participação de todos, a cidade não se tornará refém de iniciativas pontuais a cada mudança de mandato. É preciso ter um plano estruturado e bem discutido pela população, que pense no curto, médio e longo prazo e na viabilidade de suas execuções. Só assim haverá continuidade das soluções para uma cidade com melhor qualidade de vida e voltada efetivamente para as pessoas que nela vivem.
Marcelo Tadeu Mancini é arquiteto urbanista e mestre em Engenharia de Transportes
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