Matão perde Luiz Marchesan. Empresário deixa grande legado
Empreendedor faleceu por volta das 18h20 do domingo (19), aos 92 anos
Do acervo · publicada originalmente em 24 de julho de 2020
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 7 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Luiz Marchesan faleceu por volta das 18h20 do último dia 19, em sua casa, vítima de falência múltipla de órgãos. Desde dezembro de 2017, ele tentava se recuperar de problemas decorrentes de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Luiz havia completado 92 anos no último dia 6.
Nascido em Matão, Luiz era casado com Magdalena Ulson Marchesan, com quem teve quatro filhos: João Carlos (casado com Maria de Lourdes Bottura Marchesan, pais de João Carlos Filho, Luiz Eduardo, Giovanna e Luciana), Marta Cristina (casada com Theodoro Marischen, pais de Gustavo, Julio Augusto e Marina), José Luiz Alberto (casado com Lucia Helena Bambozzi Marchesan, pais de Ricardo, Caio, Luiz Neto e Cristina) e Maria Cecília (Ciça, casada com José Luiz Gandolphi - Zezo, pais de Carolina e Renata). São 13 netos e 23 bisnetos.
Ao lado do irmão Armando – hoje com 97 anos –, Luiz fundou e viveu uma das maiores empresas do setor de máquinas e implementos agrícolas da América Latina – talvez uma das maiores do planeta, se consideradas as indústrias numa mesma planta: a Tatu-Marchesan, que nasceu denominada como Oficina Brasil dos Irmãos Marchesan. Nesta página, A Comarca publica a maior parte de uma reportagem especial feita para a Revista A Comarca – Matão 118 Anos, publicada em agosto de 2016.
Assim como Armando, ‘Luizão’ mostrou que o querer e o saber não se completam – não progridem – se o fazer não acontecer. Ele deixa como legado uma obra familiar e profissional muito bem construída, exemplar a tantas famílias, empresários e trabalhadores. Ressalta-se o valor dos esforços criativos e físicos, que caminharam juntos na labuta diária de trabalho por mais de 70 anos, a partir do bater de ferro na bigorna, tantas vezes saído da forja, no pequeno galpão ou mesmo na calçada de terra.
Luiz Marchesan foi sepultado em Matão na manhã da segunda-feira (20), após ser velado por familiares e amigos mais próximos em sua residência. O trânsito do entorno foi readequado e muitas homenagens em formas de coroas de flores foram ali entregues. A Prefeitura de Matão e a Câmara Municipal declararam Luto Oficial de três dias.
Uma história de trabalho e progresso
Luiz Marchesan sempre teve o irmão Armando ao seu lado
Giovanni Marchesan, natural de Castello Di Godego (região do Veneto, província de Treviso) chegou ao porto de Santos em 1896, dirigindo-se ao interior paulista para trabalhar na construção das estradas de ferro entre Jaboticabal e Porto Taboado (antiga localidade). Em sequência, Giovanni viveu próximo a Catanduva, Valinhos, Campinas e depois foi para Matão, já casado com Maria Pietrobon (Marieta) – a qual conheceu na viagem de navio da Itália para o Brasil.
Com Marieta, Giovanni teve três filhos: José, Guilherme e Alexandre. José casou-se com Zaira Bocchi, com quem teve quatro filhos: Orlando (1920), Armando (1923), Yolanda (1926) e Luiz (1928), tendo Luiz nascido no dia 6 de julho do referido ano. Zaira, a mãe deles, faleceu aos 29 anos de idade. O pai, José, partiu cinco anos depois, aos 36 anos.
Os quatro irmãos eram crianças e adolescentes quando ficaram órfãos também de pai, pois Orlando tinha 14 anos; Armando, 12; Yolanda, 9; e Luiz, 7 anos de idade. Os quatro irmãos foram criados por tios paternos. Estudaram, cresceram, trabalharam. Armando e Luiz, inicialmente, conseguiram emprego em uma fábrica de carrocinhas. Aos 14 anos, Luiz dominava muito bem a arte de ferreiro, enquanto o conhecimento de Armando fortaleceu-se na carpintaria. Cientes de suas habilidades nos ofícios que exerciam, resolveram trabalhar também por conta própria, já que possuíam o mais importante: experiência nos seus ofícios.
No dia 1º de maio de 1946, iniciaram uma empresa própria. Os dois irmãos alugaram um barracão na Avenida Siqueira Campos, entre as ruas João Pessoa e Rui Barbosa, no Centro de Matão. Arremataram de um viajante o material necessário para a melhoria da fábrica de carroças e charretes e no dia 25 de novembro de 1946, com capital social de CR$ 20.000,00, instituíram formalmente a ‘Oficina Brasil de Irmãos Marchesan’.
A empresa teve quase toda sua produção inicial destinada a carrinhos de molas e charretes. Em poucos meses, a Oficina Brasil já produzia cerca de dez carrocinhas por semana com o trabalho de quatro pessoas, contando com os dois irmãos. A serra e a bigorna eram os principais instrumentos de trabalho, sendo a bigorna adotada como símbolo da empresa. A maior parte da matéria prima utilizada para a fabricação de carroças e charretes era proveniente de aço reciclado que eles obtinham na região.
Inicialmente, os produtos foram comercializados em municípios próximos a Matão. Com o passar do tempo, a fama dos produtos Marchesan ultrapassou fronteiras e as carrocinhas e charretes já eram comercializadas no norte do Paraná. Armando e Luiz – sempre atentos às necessidades dos agricultores em evoluir – resolveram ampliar a linha de produtos e começaram a fabricar também implementos agrícolas de tração animal (arados, grades de discos, cultivadores de enxadas, entre outros).
O aumento na procura por estes tipos de implementos era cada vez maior e a demanda por matéria prima em maior quantidade fez diminuir o uso de aço reciclado para dar espaço às chapas de aço que na época eram importadas. Seus instrumentos artesanais de trabalho, gradualmente, foram substituídos por máquinas de maior porte.
A Oficina Brasil teve o nome mudado para Irmãos Marchesan Ltda no dia 1º de janeiro de 1952. Em 1963 houve a primeira mudança, indo para a Rua Bambozzi, número 430. Os Marchesan estavam sempre atentos às necessidades de evolução na mecanização agrícola e, com a experiência adquirida por tanto tempo de trabalho no ramo, iniciaram a produção de implementos tracionados por tratores (denominados de tração mecânica).
Os negócios aumentavam, pressionados pela alta demanda e maior competitividade, e a indústria crescia cada vez mais. O símbolo da bigorna – antes associada às carrocinhas e charretes – ficou de lado para dar lugar à marca Tatu, pois a produção estava voltada a implementos para o cultivo do solo. Assim, em 1955, com a mudança do símbolo da empresa para a marca Tatu, os irmãos tinham encontrado algo que fizesse a associação dos implementos com a sua finalidade.
TATU-MARCHESAN
Com o passar do tempo, a empresa enfrentou crises na agricultura e problemas com o fornecimento de aço. Porém, a luta continuava e a Marchesan cresceu em seus espaços físicos e na conquista de clientes em vários estados. Em 20 de janeiro de 1967, a ‘Irmãos Marchesan’ se transforma em sociedade anônima e passa a ser designada ‘Marchesan Implementos e Máquinas Agrícolas Tatu S/A’.
No final da década de 1960 e início da década de 1970, a evolução na agricultura teve grande impulso com a mecanização da lavoura. A partir deste período, a Marchesan iniciou um processo de reestruturação que a projetou no mercado externo, atendendo inicialmente a demanda dos agricultores do Paraguai. Assim, o mundo começou a conhecer a qualidade dos produtos da marca Tatu.
Em 1970, a empresa tinha 180 funcionários e o seu perfil administrativo também passou por ajustes necessários ao atendimento das demandas futuras de crescimento. Os produtos se diversificaram; a rede de revendedores foi ampliada para todo o Brasil e as exportações – até o momento somente para o Paraguai – passaram a acontecer também a outros países da América Latina. Em 1979, houve a expansão para uma grande área ligada ao prédio da Rua Bambozzi, mudando o endereço: Avenida Marchesan, 1.979.
Na década de 1980, as exportações se expandiram para o restante do continente americano e alguns países da África e Oriente Médio. Em 1986, as vendas para o exterior representavam quase 20% da produção total da Marchesan e atingiam 23 países. Já era a maior empresa do setor na América Latina e a terceira no mundo, com 2.500 funcionários.
Em janeiro de 2011, a gestão da Marchesan passou por outra etapa de modernização com a criação do Conselho de Administração, que fortaleceu as regras de Governança Corporativa e fomentou o processo de profissionalização da gestão. A empresa mantém o legado dos irmãos Luiz e Armando, que com intensa vontade de trabalhar, coragem, abnegação e boa parcela de criatividade construíram uma Marchesan que há 74 anos ocupa posição de importante destaque no cenário da mecanização agrícola nacional.
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