A nau dos sonhadores na cultura pandêmica
ARTIGO - JULIANO JACOPINI
Do acervo · publicada originalmente em 9 de julho de 2020
Fonte: JULIANO JACOPINI
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Fui convidado para refletir sobre cultura e pandemia e o sentimento desse ato – o da escrita – funciona também como expurgo de percepções de uma nova onda que emerge no país, o de cultura da pandemia. Sim! O impacto da pandemia reverbera em nossas ações que, inevitavelmente, constroem uma cultura pelo acontecimento no aqui e agora, nos responsabilizando como sociedade civil dos percalços passados e dos que ainda estão por vir, porque muito ainda está por vir. Ainda, o convite instiga por ser um exercício de olhar para o interior paulista, a cultura do interior, a pandemia no interior, pois bem: a cultura pandêmica de uma terra da saudade.
Tenho funcionado há alguns anos como agente cultural em Matão, fazendo parte do que chamarei de nichos: de artistas, então, por muitos visto como loucos, por gastarem seu tempo com o impalpável que é a arte; de educadores, então, por muitos tido como bobos, por gastarem seu tempo em uma das profissões mais desvalorizadas do Brasil. Não digo nada para menosprezar, apenas para reforçar traços históricos que o ser arte-educador me rendeu, mas há pontos em que ser artista e ser educador se interseccionam: ser sonhador. Faço assim parte do nicho maior: o de sonhadores. Mas sonhar é, de certa maneira, visitar um futuro... e qual o direito que estamos tendo do futuro?
Um futuro é feito apenas de presente e há algum tempo o presente do suporte do poder público à cultura de Matão é ínfimo, chegando a deixar as tais saudades da terra. Os ecos de desejo de uma descentralização cultural, infelizmente, caíram em um vácuo ao tempo que emergiu a pandemia, e aí está o ponto que retomo agora: estamos construindo uma cultura pandêmica, o que é, de certo modo, usar do inesperado a próprio favor.
Esclareço: de março, período em que estourou a pandemia no Brasil, até o momento, nada foi sinalizado pelo setor cultural do município, não havendo sequer anúncios de tentativas de criar canais por onde a cultura e seus trabalhadores pudessem encontrar apoio para se manterem vivos. Pelo contrário, contratos de arte-educadores para atuar em projetos como ‘Casa do Pequeno Cidadão’ foram suspensos ao invés de se pensar alternativas que pudessem proteger esses profissionais, que, em um momento frágil como este, foram mais fragilizados, tendo seus salários simplesmente cortados. Isso é um exemplo de modelo de cultura pandêmica que justifica o efeito pela causa e não busca alternativas de amparar atuadores, fazedores culturais, munícipes, sociedade civil. Agora, falando de causa e efeito – o que segue a ordem dos fatos –, aí mora reflexo de a Casa da Cultura estar há quase dois anos sem diretor, cabendo à Secretaria da Educação (e Cultura) se desdobrar nas pastas dos loucos e bobos – bem, quero dizer, dos sonhadores.
Onde estão os artistas? Onde estão os loucos? Onde estão os sonhadores? Estão aí, aqui, em todo lugar, tentando tornar a vida dos cidadãos suportável nessa fase dura e estranha que estamos vivendo. E tornam porque enchem a vida de poesia e virtude, parafraseando Baudelaire. Porque dançam, cantam, atuam, pintam, criam espaços e tempos que nos suspendem do tédio, do medo, do real, oportunizando sempre a alternativa de tentarmos contar outro “era uma vez”, denunciando fraudulências em suas ironias, apaziguando a dor nas rimas, apostando na utopia, porque se perguntamos sobre o futuro para o artista, ele nos dá o presente e é do presente que estamos precisando.
Há uma espera(nça): uma distribuição justa de auxílio emergencial via Lei Aldir Blanc, sancionada no dia 29 de junho de 2020, que prevê repasse para o munícipio de Matão de R$ 590 mil a ser direcionado para artistas e espaços culturais, para que se mantenha a re-existência, a sobrevivência. Sempre digo que no interior o tempo é outro, mas não estou falando de relógios e sim de atitudes no mundo. Que antes o mundo seja de loucos, bobos e sonhadores do que de nada, porque o nada é o preenchimento total de que algo está sendo feito errado. O nada é uma peste tal qual a virulência que nos abate. Que o mundo seja o agora! Feito de sonho e de luta!
Juliano Jacopini é doutor em Artes da Cena, mestre em Educação e Arte (Unicamp) e pedagogo (USP). Dramaturgo, diretor, ator e arte-educador na Cia Labirinto de Teatro. Coordenador da Casa Pipa e do Festival Fronteiras Brasil.
O nada é uma peste tal qual a virulência que nos abate. Que o mundo seja o agora! Feito de sonho e de luta!
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