Revista A Comarca - Mães de artistas: as fãs nº 1
Mães falam sobre os desafios e as alegrias de terem filhos artistas
Do acervo · publicada originalmente em 12 de maio de 2020
Fonte: Mariluci Schiavetto, postado por Igor Oliveira
· Leitura de 10 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Ser mãe de artista é ter uma experiência diferente de maternidade. É se envolver emocionalmente com a escolha que o filho fez, seja tocando um instrumento, cantando, interpretando. É se encantar com a arte que os move. É sentir orgulho da dedicação e da vontade de ser cada dia melhor. É sempre estar incentivando para não permitir que a inspiração acabe. Ser mãe de artista é acompanhar cada passo: motivar em cada aula, estar na plateia em cada espetáculo, constatar a evolução de seus filhos em técnica e, principalmente, como pessoas.
Ser mãe de artista não deve ser nada fácil... Apesar de algumas ficarem muito tempo longe dos filhos, elas sempre estão lá para dar todo o apoio. Mãe de artista, mãe de ator, mãe de pianista, mãe de baterista, mãe que patrocina, ‘mãetorista’, mãe que incentiva, mãe que dança, mãe que sobe no palco, mãe que leva flores, mãe que cuida de cada detalhe. Parte do sucesso vem da confiança que as mães depositam em seus filhos. Sem elas, talvez eles não conseguissem ser tão brilhantes...
‘FILHO DE PEIXE...’
Muitos pais e mães – especialmente aqueles que têm uma ‘veia artística’ – sonham em ver o filho fazendo música, tocando um instrumento. A cantora Cristiane Piratinga Pinheiro - Cris (da dupla Cris & Douglas) passou por essa expectativa, mas sempre deixando o filho confortável para fazer suas escolhas. “Antes do Gabriel nascer, combinamos de deixá-lo bem à vontade; se ele tivesse o dom, seria algo natural, pois entendo que tudo que é imposto fica mal feito; a pessoa pode aprender a cantar e tocar, mas com o dom fica tudo melhor”, afirma Cris.
Desde muito pequeno, Gabriel já curtia Iron Maiden e Deep Purple. Cris conta que, certo dia, ele perguntou se poderia tocar Creedence na bateria. “Ficamos espantados, pois não imaginávamos que ele sabia tocar um som daquela banda. Meio desconfiado, o Douglas travou o chimbal, porque ele só alcançava a perninha do pedal do bumbo. Pedimos licença para o público e ele tocou certinho. Nunca o Douglas pegou as mãozinhas dele para ensiná-lo. Ele aprendeu só de olhar o pai. Com uns seis anos, mais ou menos, subiu no palco do Alberg, bar do Rogério Gabriel e da Ivete, e cantou pela primeira vez, um trecho de uma música do Capital Inicial”, conta.
O tempo passou. Gabriel está com 21 anos, toca bateria e contrabaixo profissionalmente e faz backing vocal. É baterista de duplas sertanejas (como Dani & Danilo), toca na Free Band, toca baixo em grupos de pagode e na banda Dama de Ferro. É patrocinado pelas baquetas @prostickusa e tem muitos vídeos no Instagram, mostrando seu trabalho. “Ele tem muita visibilidade, o que o poderá ajudar, futuramente, a tocar com algum cantor famoso”, comenta Cris. A mãe, cantora profissional há 28 anos, não interfere nas escolhas de repertório, afirmando que o filho possui excelentes referências musicais. “Gabriel só ouviu música boa. Quando ele tocava com músicos ‘da antiga’, eles ficavam admirados de seu conhecimento musical. Com o nosso esquema ‘Cris e Douglas’, ele aprendeu a tocar, tanto na batera quanto no baixo, diversos gêneros musicais, como MPB, samba, rock, forró, pagode, axé, bossa nova, jazz”, conta.
Como ‘mãe é tudo igual’, Cris também aprendeu a lidar com os sonhos e preocupações relacionados ao futuro do filho. “Meu sonho era de que ele fizesse faculdade e tocasse por hobby. Mas com 15 anos, ele já começou a ser assediado pelas bandas. Eu sempre fui rígida e só aceitei que ele fosse tocar com outros cantores, sem ser conosco, quando ele tinha quase 17 anos. Aceitei de tanto o Douglas insistir. Conclusão: ele estava fazendo faculdade para designer digital e, por conta dos inúmeros ensaios e shows, trancou a matrícula e nunca mais voltou. Outra preocupação era fiscalizar com quem ele tocaria, para não correr o risco de envolvimento com drogas. Só tocava com nossos amigos músicos, pessoas de família, profissionais e adultos. Quando tocava em outra cidade, eu ficava com o coração apertado”, confessa.
Com a recomendação de distanciamento social para o combate à disseminação do novo coronavírus, o setor de eventos ficou estagnado. Com agendas suspensas, artistas tentam lidar com o prejuízo e manter a esperança de retomada no segundo semestre. “Nossas agendas estavam cheias desde março, com todos os finais de semana fechados até julho. Mas infelizmente tudo foi cancelado. Graças a Deus, não está faltando nada. Em breve voltaremos com tudo, esse é meu sonho e desejo. Amamos nossa profissão e somos gratos a Deus pelo dom que nos deu”, conclui Cris.
DEVER CUMPRIDO
Eloá Gonçalves fez seu primeiro show aos 15 anos. Desde pequena, ela vivia em torno dos tios e primos que tocavam violão e cantavam. Com cinco anos, já ficava tentando ‘tirar músicas de ouvido’ e, depois, corria até a cozinha para mostrar à mãe. “Ali eu já percebia que ela tinha um talento e um gosto especial pela música”, revela Vera Lúcia Vieira Gonçalves, mãe da Eloá. “Sempre houve incentivo e nenhuma resistência”, afirma. Aos 14 anos, Eloá estudava piano com a professora Leila Kfouri. Nessa época, a menina ainda não tinha um piano, e a mãe, que a levava para as aulas, ficava por horas à sua espera. “Era uma das minhas maneiras de incentivar. Fazia tudo com muito amor e prazer. Nunca me senti ‘abrindo mão’ de nada para que ela conseguisse estudar e seguir a carreia de pianista. Sempre foi uma satisfação e um orgulho”, ressalta Vera.
Pianista, compositora e arranjadora, Eloá ainda toca outros instrumentos por diversão (violão, baixo, bateria). Aos 34 anos, ela mora em Graz (Áustria) desde 2018. Está terminando o mestrado em jazz performance pela University of Music and Performing Arts Graz. Atualmente, ela lidera o próprio trio de jazz (Eloá Gonçalves Trio, que está prestes a lançar o primeiro álbum pela gravadora austríaca de jazz Alessa Records) e colabora em outros projetos como: o quarteto da trompetista polonesa Kaya Meller, o trio do saxofonista esloveno Jaka Arh, o trio de nordic jazz Experience of the North e outros projetos mais recentes como o duo com a cellista francesa Mathilde Vendramin, com a qual pretende gravar um álbum no fim desse ano, também assinando composições e arranjos.
Como toda mãe que vive longe dos filhos, Vera cita a distância como o maior entrave. “Não podemos estar juntas em festas, comemorações de família, aniversários, Natal, Ano Novo. E eu sinto muita saudade! Quando ela ainda morava no Brasil, mesmo estando mais perto, eram poucos os finais de semana livres porque estava sempre fazendo shows. Mas agora, morando em outro país e vindo somente uma vez por ano ao Brasil, ficou ainda mais difícil”, argumenta Vera. Devido à distância, ela acompanha as apresentações da filha pelas mídias sociais. “A sensação ao vê-la e ouvi-la é uma soma de coisas boas: alegria, emoção e a sensação de missão cumprida. Me sinto muito feliz por ela ter conseguido estar aonde sempre quis, com muito esforço e estudo, porque nada é fácil na vida, tudo exige muita dedicação e amor. E isso ela tem de sobra (risos). Para mim, ela será sempre a melhor pianista do mundo!”.
Como praticamente toda a Europa, a Áustria também adotou medidas rígidas de isolamento social devido ao novo coronavírus, deixando Vera apreensiva. “A Áustria toda entrou em quarentena, decretada pelo governo sob pena de multa no dia 12 de março. A faculdade onde Eloá estuda está fechada, sem aulas presenciais; todos os concertos e ensaios estão cancelados. A previsão é de que os concertos e atividades culturais por lá possam ser retomados aos poucos a partir de julho”, informa Vera. Mesmo diante das adversidades causadas pela distância e pela atual situação da saúde pública mundial, ela tem certeza de que a filha fez muito bem suas escolhas. “A maior alegria é saber e sentir que ela está feliz em sua profissão. O piano é um instrumento maravilhoso. Eu amo ouvi-la tocar”, salienta.
NA ESTRADA DO ROCK
Rita Aparecida Antonio Rosa percebeu desde muito cedo que os filhos Fabiano e Elaine demonstravam grande interesse pela música e pelas artes. “Por terem quase a mesma idade, o lado musical e artístico dos dois foi se desenvolvendo ao mesmo tempo. Aos quatro anos, o Fabiano já batia nas panelas que ele mesmo retirava do armário e distribuía pelo chão como se fosse uma bateria, e a Elaine sempre o acompanhava (risos)”, conta. O pai, Luiz Aparecido Rosa, gostava de tocar viola e violão para eles, que observavam atentos e gostavam. Sempre havia algum instrumento musical envolvido em suas brincadeiras de criança. “Houve apoio da nossa parte. Nunca os limitamos, pelo contrário, sempre apoiamos a participação em vários tipos de apresentações artísticas como festivais de bandas, corais e teatros”, afirma Rita.
Vivendo em Madri (Espanha) desde 2009, o matonense Fabiano Rosa é baterista da banda espanhola Los Wilds (Os Selvagens), que já participou de festivais em oito países – como Estados Unidos e Inglaterra. Pelo quarto ano consecutivo, a Los Wilds foi convidada a tocar num dos festivais mais importantes do mundo, o SXSW South by Southwest, que acontece em Austin (Texas - EUA), porém o evento foi cancelado devido à pandemia do novo coranavírus. Em 2019 participou do Coney Island Music Festival, em Nova York (EUA), onde os Ramones tocaram em 1977. A Los Wilds também se apresentou no Liverpool Sound City (Inglaterra) e foi citada por algumas revistas inglesas como uma das 13 melhores performances do festival, fazendo com que uma das principais gravadoras independentes da Califórnia (EUA), a Burger Records, se interessasse pela banda e a representasse. O som da Los Wilds tem tocado em rádios de Seattle, San Francisco, Austin e Los Angeles.
“Como sempre, nos surpreendendo! Não esperava que ele fosse morar muito tempo por lá, e até agora já se foram 10 anos. O Fabiano sempre tocou bateria, desde nas bandas de garagem aqui em Matão, passando por São Paulo e agora em Madri com sua banda Los Wilds, que participa de grandes festivais na Europa, Estados Unidos e México. Ficamos muito felizes quando sabemos que os filhos estão fazendo o que gostam”, declara Rita, que sempre acompanhou a carreira artística dos filhos e diz se entristecer pela falta de valorização e reconhecimento aos músicos e artistas em geral. “É preciso muita dedicação por parte deles, pois é necessário abrir mão de momentos com a família para ensaiar, montar seus figurinos, para assim oferecer o seu melhor em cada apresentação. No momento da atual pandemia, vimos como a música e as apresentações artísticas tornaram-se necessárias, nos proporcionando momentos de alegria, descontração e entretenimento”.
Em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19) e sendo a Espanha um dos epicentros da doença no mundo, Rita vive constante preocupação com o filho. “Acompanhamos pelas notícias como tem sido os dias por lá. Nos falamos por mensagens de Whatsapp e videochamadas para matar a saudade. Já são meses em isolamento social e, como mãe, sei que ele está sentindo muita falta de tocar com a banda por aí (risos). A situação é difícil para toda a família, pois cada rara saída para ir ao supermercado gera uma nova tensão, devido a todos os cuidados que precisam ser tomados. Por aqui seguimos com muitas orações e confiança de que tudo irá passar”, assegura. Para o futuro dos filhos, Rita deseja que sejam felizes e realizados: “Continuo acreditando neles, confiando em suas escolhas e realizações, e desejando que sejam muito felizes. Que nunca deixem de aprender e que Deus abençoe a vida de cada um deles”.
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