Artigo - Uma audiência única... e inesquecível
PAULO BERNARDI
Do acervo · publicada originalmente em 15 de maio de 2020
Fonte: PAULO BERNARDI
· Leitura de 6 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Depois de trinta e poucos anos de carreira, a memória não me permite lembrar o ano em que essa audiência aconteceu. Provavelmente nos anos 90. Como todos os presentes naquele ato – ou quase todos, exceto o juiz e eu – já são falecidos e como não havia litígio algum, depois de ler uma manifestação (post) magnífica da dona Íride Cicogna Gimenez no Facebook, resolvi contar essa história.
O Roberto Rossi colaborava com o Asilo, a Sociedade São Vicente de Paulo. Depois de aposentar-se após décadas de trabalho no Banco do Brasil, ao invés de colocar o pijama, resolveu dedicar-se ainda mais à sua comunidade. Roberto esteve comigo na Apae, depois no Comcriama – e ajudou, dentre outras, na construção da Casa Abrigo. E como voluntário (sempre) estava no Asilo e descobriu que o velho Asilo, o terreno e as construções no centro da cidade careciam de regularização, uma vez que as áreas doadas não tinham sido levadas a registro, salvo engano.
Procurados por ele – na época éramos sócios, o saudoso Adail Pedro (o Elegância) e eu –, lá fomos nós ajuizar uma ação de usucapião, visando regularizar as áreas da Sociedade São Vicente de Paulo. Os advogados sabem que, além de intimar os vizinhos, numa ação de usucapião é preciso provar a posse sobre a área. Com documentos ou testemunhas.
A situação era bem velha e tínhamos que ter testemunhas que dissessem ao juiz que o Asilo tinha a posse daquela área de terras. É uma praxe em ações de usucapião quando há uma carência de documentos, pelo tempo passado e pela época em que os fatos se deram, quando pouco ou quase nada se registrava, nem mesmo nas páginas da não menos antiga ‘A Comarca’.
Aí começamos a procurar quem poderiam ser pessoas que conheciam e frequentavam o Asilo há 20 ou 30 anos antes da ação. Pensamos nos ex-prefeitos, claro. Quem mais poderia ter condições de dizer ao juiz que a área sempre fora do Asilo? Daí surgiram dois nomes: Leônidas Calígola Bastia e Walter Cicogna. O que mais poderíamos querer? Honradez, caráter, reputação, tudo muito acima do máximo.
Procurei, eu próprio, o Seo Walter. Na casa dele, anexa à Pharmácia Central. Se me lembro bem, conversei com ele sentados num sofá (acho que marrom) na sala de sua casa. Não me recordo da presença da Dona Dolores (Lola). A Pharmácia e a casa não resistiram a modernidade. Explicado o caso, prontamente colocou à disposição o seu testemunho.
De lá, junto com o Roberto Rossi, fomos à casa do Doutor Calígola, no sobrado da Prudente de Morais esquina com a Siqueira Campos, tão bem preservado pela família do bondoso médico. Fomos recebidos por Dona Palmira, a Vó Palmira, lugar tenente e porta voz do Doutor Calígola. Este, de pronto, igualmente dispôs-se a dar o seu testemunho.
Ao juiz, expliquei quem eram as testemunhas e a idade de ambos, seguramente com mais de 70 anos, e pedi para que os dispensasse de se dirigirem ao fórum, fazendo com que a audiência fosse realizada – por deferência do Magistrado (e se ele soubesse quem eram as testemunhas e o que representaram para a história de Matão, talvez nem as ouvisse, por desnecessidade da prova, uma vez que a simples indicação dos mesmos, dada a idoneidade moral de ambos, já indicava que testemunho falso não viria, com certeza) – na residência de ambos.
Chegado o dia da audiência, fomos o juiz, seu escrevente, o saudoso Roberto Rossi (representando o Asilo) e eu, primeiro à casa do Seo Walter. Lá foi bem mais rápido. É certo que a testemunha, com riqueza de detalhes, lembrou ao juiz das noites e noites em que era chamado para atender os asilados e os abrigados. E que não era só o então prefeito quem falava, mas o farmacêutico que, como outros (destaco Cyro Modé, João Comelli, Alder Comelli, Alberto Benassi...) deu sua vida ao próximo, com uma dedicação invejável. Não é demais falar que o juiz, bem moço, ficou encantado com aquela figura tão singular.
Muito bem. Cumprida a primeira parte da missão, restava o testemunho do Doutor Calígola. O juiz até gostaria de dispensar a prova, dado que o que havia ouvido do Seo Walter o convencera, com certeza, da procedência do pedido. Mas, marcada a audiência com o Doutor Calígola, o Roberto Rossi e eu convencemos o magistrado de que dispensar a testemunha, que já nos esperava, não seria de bom tom, ainda mais tratando de quem se tratava.
Seguimos em delegação para o sobrado. Lá, para variar, fomos recebidos pela Dona Palmira, convidando-nos a entrar e a sentar. Lá estava o Doutor Calígola, com seu excelente terno e seu inseparável chapéu. Será que alguém, em Matão, o viu sem terno e sem chapéu? Boa pergunta. Café servido, iniciado o ato solene, o juiz dirigiu-se à testemunha e passou a indagá-lo sobre a ação de usucapião.
Três perguntas feitas e Dona Palmira antecipava-se e respondia a cada uma delas, recebendo por parte da testemunha apenas um leve aceno com a cabeça, manifestando sua concordância. E narrava as madrugadas em que o Calígola se dirigia ao Asilo para assistir aqueles que dele necessitavam. E o fazia como médico, e não como político – que por pouco tempo foi.
E assim seguiu-se o tempo todo na audiência. O juiz perguntava ao Doutor Calígola e a ‘testemunha’, Dona Palmira Capparelli Bastia, de pronto, respondia a cada uma delas.
E era bem assim mesmo. O juiz, sabendo por nós e pelas conversas preliminares, com quem estava lidando, seguiu com o ato solene sem pestanejar e fez constar, no processo, o depoimento do Doutor Leônidas Calígola Bastia, tomado pela voz de sua amada e sempre porta voz Dona Palmira Capparelli Bastia.
Ficou, para nós todos – o juiz, o escrevente e eu –, uma lição de honradez, dignidade, caráter, doação, caridade, amor ao próximo, desprendimento, que nos fora transmitida por dois mestres: Walter Cicogna e Leônidas Calígola Bastia. Seria imperdoável omitir a doçura da Vó Palmira, fiel escudeira do Doutor Calígola, sua verdadeira porta voz. E o mérito do caríssimo Roberto Rossi, que tanto colaborou com a sociedade matonense e comigo, de modo todo especial, quando dividiu a responsabilidade de coletar recursos e construir a Casa Abrigo e em tantas outras atividades na Apae e no Comcriama. Foi uma honra servir ao seu lado, Roberto.
São lições de vida que todos nós deveríamos ouvir e compreender. E praticar. Cito Santo Agostinho: “aquele que tem caridade no coração tem sempre qualquer coisa para dar”. E quanta caridade tiveram esses matonenses. Os mais velhos devem ter histórias e mais histórias para contar de cada um deles. Com eles, Walter e Calígola, convivi pouco, mas sei um pouco do muito que representaram, especialmente aos pobres e desvalidos.
Walter, Calígola, Roberto, Palmira... vocês fazem muita falta neste mundo moderno, onde os valores que vocês tanto defenderam e praticaram como guerreiros acham-se tão em desuso. Mas quem teve o privilégio de conhecê-los, sabe bem a que me refiro.
Dessa audiência fica o registro histórico, na minha memória e nos meus já trinta e poucos anos de advocacia, como uma das mais emblemáticas e singulares das muitas de que participei. Afinal, ter como preposto Roberto Rossi e como testemunhas Walter Cicogna e Leônidas Calígola Bastia é um marco histórico e um privilégio para poucos.
Espero que minha memória não tenha falhado. Procurei reproduzir esse ato único, uma audiência singular e inesquecível, com os detalhes que lembrei, e dedico essa crônica às famílias Bastia, Capparelli, Cicogna e Rossi, ‘tutti buona gente’.
Antes que eu me esqueça... ganhamos a ação!
Paulo Augusto Bernardi é advogado, presidente da 82ª Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Matão)
O juiz perguntava ao Doutor Calígola e a ‘testemunha’, Dona Palmira, de pronto, respondia a cada uma delas
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