Pesquisadores encontram lago oculto no Pantanal
Um dos integrantes da equipe é o geógrafo Eder Merino, de Matão
Do acervo · publicada originalmente em 10 de março de 2020
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 9 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020O geógrafo Eder Renato Merino realiza seu Pós-Doutorado desde fevereiro de 2018, no Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), previsto para ser concluído em fevereiro de 2021. O título de seu trabalho neste Pós-Doutorado é ‘Mapeamento de Lagoas Salinas e cristalinas do Pantanal de Nhecolândia por meio de sensoriamento remoto ótico e interferométrico’.
Em 19 de setembro de 2019, um dos artigos científicos escritos por Eder foi publicado na revista internacional ‘Earth surface processes and landforms’ (‘Processos de superfície e formas de relevo da Terra’), ficando à disposição para consultas por parte de instituições com acesso ao periódico a partir de outubro daquele ano.
Sobre o artigo ‘Hidden in plain sight: How finding a lake in the Brazilian Pantanal improves understanding of wetland hydrogeomorphology’ (‘Oculto à visão: como encontrar um lago no Pantanal Brasileiro contribui para o entendimento da hidrogeomorfologia de áreas úmidas’), escrito em parceria com o seu orientador de Doutorado, professor doutor Mário Luis Assine, Éder foi entrevistado por A Comarca.
Como você definiu sua linha de pesquisa do Doutorado?
O professor doutor Mário Luis Assine, que havia sido meu orientador na Graduação e no Mestrado, me convidou para fazer o Doutorado. Mário me inseriu em parte de um projeto de pesquisa liderado por ele, sob o título ‘Mudanças paleo-hidrológicas, cronologia de eventos e dinâmica sedimentar no quaternário da bacia do Pantanal’. Desenvolvi meu Doutorado em três capítulos: um sobre a Geomorfologia do Rio Aquidauana (MS), o segundo sobre a dinâmica hidrológica do baixo curso do Rio Negro (MS) e o terceiro sobre mudanças paleoambientais na Região Sul do Pantanal. O artigo ‘Oculto à visão’ resulta do segundo capítulo.
Como foi o processo para encontrar uma lagoa com cerca de 1.100 km² na região da planície do Rio Negro?
O professor Mário pesquisava no Google Earth e observou uma área sem indícios da presença de trilhas de gado, que são muito comuns naquela região. Com a ajuda de imagens de satélites de alta resolução espacial, usadas pelo Google Earth, foi possível detectar a presença de uma área alagada encoberta por vegetação flutuante, conhecida regionalmente como ‘camalotes’ e ‘baceiros’. Ao chegar nesta região, o Rio Negro deixa de ter um único canal, passando a se ramificar em múltiplos canais nessa região em que o lago foi formado. Cerca de 40 quilômetros a Oeste, depois da ramificação, há o que podemos considerar como a continuação do Rio Negro, denominada ‘Corixo do Negrinho’, na verdade o antigo curso do Rio Negro que, atualmente, só tem conexão com o lago durante o período de cheia.
O Rio Aquidauana também se ramifica na área do lago? Quais as principais características dos Rios Negro e Aquidauana?
O Rio Aquidauana também alimenta o lago, mas somente por meio de canais temporários que são inundados durante as cheias. Embora esse rio possua maior vazão e sedimento em suspensão do que o Rio Negro, ele atravessa toda a região do lago confinado em um canal com diques marginais elevados, construídos exatamente por possuir maior aporte sedimentar. Como em todos os anos o Pantanal é inundado, todos os rios transbordam, fazendo que rios que possuem muito sedimento em suspensão construam esses canais ‘elevados’. No caso do Rio Negro, grande parte do sedimento fica retido em seu curso superior devido a características da planície pantaneira.
Qual a profundidade do lago?
Esse lago está numa área de difícil acesso, pois a vegetação flutuante constantemente fecha os canais de acesso. Até onde conseguimos alcançar de barco, medimos quatro metros de profundidade. Parece pouco, mas não é, pois se trata de uma região completamente plana. Obtivemos esta medida após o pico da inundação; portanto, na época da cheia, o lago tem locais mais profundos. Ele é popularmente chamado de ‘Brejão do Rio Negro’, mas não é brejo; é um lago enorme. Está localizado na divisa entre os municípios de Aquidauna e Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
E quanto à qualidade da água e biodiversidade da área?
A água é cristalina. Poderia ter bebido, sem problema. O lago está numa região bastante preservada, sem frequência humana. Há muitas espécies de aves e há jacarés. Chegamos a avistar uma onça pintada, animal topo de cadeia alimentar. Quanto à flora, o Pantanal tem características típicas do bioma Cerrado. Na região do lago, há predominância da vegetação aquática, mas também espécies arbóreas pioneiras que colonizam pequenas ilhas formadas na região. O lago é um berçário para a fauna da região, pois como há o acúmulo da vegetação flutuante, há abrigo e alimento para várias espécies de peixes, pássaros, répteis e mamíferos.
Como este lago se formou?
O Pantanal está numa área tectonicamente ativa, ou seja, está sujeita a terremotos de baixos graus na Escala Richter. Na região do lago houve o rebaixamento de um bloco em relação a outro, certamente causado por um movimento tectônico. Isso fez com que o Rio Negro deixasse de ter um único curso para se ramificar em múltiplos canais, formando o lago. Ressalto que esta é a primeira vez que se descreve cientificamente sobre esse tipo de lago fluvial no Pantanal.
Qual a época estimada da formação deste lago?
Esta é uma pergunta que ainda não posso responder com certeza, pois existem pesquisas em curso. Contudo, estimo que foi entre 8 mil e 2 mil anos atrás, quando o clima da região estava mudando de um padrão tipicamente seco para um padrão mais úmido, similar ao que temos hoje.
Que técnicas vocês usaram para caracterizar a área?
Utilizamos séries temporais de imagens de satélite, mapeamento geomorfológico, levantamentos hidrológicos (vazão e profundidade dos cursos d’água), validação do mapeamento e realizamos um sobrevoo na região.
O projeto reúne outros pesquisadores?
Sim. Reúne professores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), USP, Unicamp, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Paraná, Universidade de Kentucky (Estados Unidos) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Qual o estudo desenvolvido por este projeto?
O projeto ‘Mudanças paleo-hidrológicas, cronologia de eventos e dinâmica sedimentar no quaternário da bacia do Pantanal’ é multidisciplinar e estuda mudanças paleoambientais, a geomorfologia e geologia do Pantanal, bem como as características dos principais rios pantaneiros: Paraguai, Taquari, Cuiabá, Negro, Aquidauana, Miranda, Itiquira, São Lourenço, entre outros. O projeto teve início em 2014, época em que meu Doutorado já tinha começado, mas eu estudava outra região do Pantanal. Mudei de área a convite do meu orientador.
Vocês procuram outras paisagens ocultas?
Não. Contudo sabemos que outras regiões do Pantanal apresentam padrões similares à área que estudamos. Isso ocorre pela junção de fatores tectônicos, como o citado rebaixamento de blocos, e também climáticos, como as inundações anuais que acontecem anualmente no Pantanal.
De quantos artigos publicados você é autor ou co-autor?
No total são 11 artigos e um capítulo de livro, sendo ‘Oculto à visão’ o meu primeiro artigo internacional como autor principal. Possuo artigos publicados em periódicos nacionais como Revista Brasileira de Geomorfologia, Revista Brasileira de Cartografia, Revista Geografi (Rio Claro) e também em periódicos internacionais como Earth Surface Processes and Landforms, Geomorphology, Sedimentary Geology, Brazilian Journal of Geology. O capítulo faz parte de um livro sobre o Pantanal publicado pela Editora Springer.
Estudar a área exigiu muito tempo?
Sim, muito! A área é bastante complicada de entender e também de explicar o funcionamento. Foi preciso considerar muitas variáveis para chegar a uma interpretação final sobre a área em si e os processos que lá ocorrem. Precisamos considerar fatores climáticos, biológicos, geomorfológicos, geológicos, hidrológicos, bem como foi necessário o uso de diferentes técnicas de processamento de imagens de satélites para provar o que estávamos propondo.
Qual a satisfação pessoal em realizar este trabalho e vê-lo publicado numa revista especializada internacional?
É uma satisfação imensa ver meu trabalho contribuindo com a preservação de uma das áreas mais bonitas do Brasil e que eu já admirava muito, desde criança. Também é muito importante ver a pesquisa publicada em um periódico internacional de impacto, principalmente se considerarmos o momento complicado por que passa a universidade pública brasileira. As pessoas precisam entender que a universidade pública tem o poder de transformar vidas, vide meu caso, que venho de uma família de baixa renda, trabalhei como sorveteiro e empacotador de supermercado e hoje sou pesquisador na maior universidade brasileira.
Agradecimentos?
Agradeço a minha família por ter me dado a oportunidade de estudar; ao meu orientador de Doutorado, o professor doutor Mário Assine; ao meu atual supervisor do Pós-Doc, professor doutor Adolpho Melfi; à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou o projeto ao qual meu Doutorado estava inserido e financia atualmente meu Pós-Doutorado. Agradeço também à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) por minha bolsa de Doutorado. Por fim, agradeço aos parceiros e amigos que sem os quais, esse projeto não teria sido finalizado: os professores doutores Fabiano Pupim, Hudson Macedo e Aguinaldo Silva.
PERFIL
Eder Renato Merino nasceu em Cianorte (PR), no dia 7 de julho de 1982, filho caçula Odézio Delcides Merino (in memorian) e de Carmem Luiz da Silva Merino, sendo irmão de Ivone, Ivete e Iliane. “Nossa família chegou a Matão em 1989 e comecei a trabalhar aos 12 anos, vendendo sorvete. Depois passei pelo extinto Supermercado Salatta, pelo Grupo Bambozzi e Ispac Informática. Fui aluno do Ensino Fundamental na EE ‘José Carlos Pinotti’, cursei o Técnico em Processamento de Dados na EM ‘Adelino Bordignon’ e fiz Cursinho na Escola CEM e no COC-Matão. Em fevereiro de 2003, iniciei o curso superior de Geografia na Unesp-Rio Claro, concluindo-o em junho de 2008. Durante a graduação, fui professor voluntário de um curso preparatório gratuito para Processos Seletivos e Vestibulares, o Praxis, dentro da Unesp-Rio Claro. Após me formar trabalhei um ano como guia de turismo no Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal (Miranda - MS). Fiz o Mestrado na Unesp-Rio Claro, de agosto de 2009 a agosto de 2011. Na mesma unidade, cursei o Doutorado de março de 2012 a dezembro de 2016. Tanto o Mestrado como o Doutorado estavam inseridos no Programa de Pós-Graduação em Geociências e Meio Ambiente. De agosto a dezembro de 2014, realizei um ‘Doutorado Sanduíche’ na Universidade do Texas (Estados Unidos), por via do Programa Ciência Sem Fronteiras. Em 2017 e 2019, lecionei como professor substituto nos cursos de Engenharia Ambiental e de Geografia da Unesp-Rio Claro”.
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