A era da tecnologia e a saudade da rede de amigos
ARTIGO - ADEMIR DE SOUZA
Do acervo · publicada originalmente em 4 de fevereiro de 2020
Fonte: Ademir de Souza
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Com o advento da internet e redes sociais, acompanhamos profundas transformações tecnológicas e produtivas no mundo, com cada vez mais gente sendo substituída por máquinas, a ponto de inúmeras funções de trabalho serem extintas – como, aliás, Jeremy Rifkin previa em 1996, no livro ‘O fim dos empregos’. Nele, o analista procurou demonstrar que o desemprego tecnológico era (e ainda é) a maior ameaça que a sociedade iria e está a enfrentar nos anos seguintes, com evidências da inquietante perspectiva e necessidade de um engajamento de todos em busca de alternativas para a solução do problema. De acordo com Rifkin, as evidências históricas negavam o pressuposto de que a inovação tecnológica estimula o crescimento econômico e o emprego. Segundo Rifkin, era a falsa ideia de que a oferta criaria a demanda que já havia levado a humanidade à armadilha da depressão de 1929.
No Brasil, ouvimos muito dizer que era preciso ‘crescer o bolo para depois repartir’. O que se viu na verdade, como previsto: antigos ‘exércitos’ deram lugar aos excedentes. O capital transitou do fordismo ao toyotismo e veio a revolução tecnocientífica da robótica e da inteligência artificial. Essa realidade vem transformando a configuração de classes na sociedade, atingindo as relações de trabalho, a dinâmica das cidades, a produção e a forma dos amigos se relacionar. É comum ouvir que estamos assistindo a ‘uberização’ da economia. E na esteira dessas mudanças tecnológicas se assiste a extrema individualização, as chamadas sociedades ‘métricas’, dos algoritmos, que criam redes virtuais (nada sociais) de proteção e conforto, onde grupos crescentes, negando a sociabilidade da política e rejeitando a cena pública, partilham seus desencantos e seu egoísmo, suas reações a um ‘mundo hostil’, que ‘não tem mais jeito’.
Com isso, sem querer criar ‘terrorismo’, penso que alguém (com certeza, grupos) criou algo como um ‘partido digital’ que busca o ‘domínio’, exercendo o controle e a vigilância da informação, estimulando a antipolítica e propondo ‘gestores’ no lugar de governantes, consumidores em vez de cidadãos. De alguns anos pra cá, parte inclusive de políticos e asseclas adotou esse discurso do ‘não sou político, sou técnico’. Não é preciso ir longe para saber que não passa de discurso. Essa celeridade na comunicação e a excessiva informação não permitem, muitas vezes, que as pessoas consigam fazer uma análise crítica da realidade dos fatos. Informações frágeis (inverossímeis) prevalecem em razão da realidade cada vez mais aguçada da presença de cidadãos regulados, fragilizados e individualizados que se tornam presas fáceis para buscar ‘salvadores da pátria’.
Na verdade, somos partes de uma engrenagem em que está em disputa um novo modelo de civilização. Qual modelo (?) queremos ou estamos é a grande questão. Reconheço que é uma realidade difícil de fugir, todavia, tenho procurado cada vez menos os grupos de Whatsapp, bem como mensagens para listas; saí do Facebook e nunca ativei qualquer outra rede social. Limito-me atualmente ao e-mail como meio de contato para documentos. Prefiro ir à casa de meus pais no Jardim Alvorada, onde tenho inclusive a oportunidade de rever velhos amigos que por lá ainda residem. Foi naquele pequeno pedaço, onde minha família chegou em 1976 (sem computador e internet), que criei minha primeira rede social e aprendi os laços da amizade; ampliei os grupos de amigos na escola do Alvorada, na então comunidade Cojjal, hoje Santa Clara, na Comunidade São Francisco. Do Alvorada, caminhava todos os dias até a Rua Ítalo Ferreira para pegar o ônibus e ir ao trabalho na Albaricci, onde mais uma rede de amigos se formou. A turma da companhia da pesca (mais companhia do que pesca, era o lema) não mais se reúne. Os velhos amigos, que outrora se juntavam por qualquer motivo para ‘tomar umas’, foram reduzidos ao ???? do zap-zap.
É pois, neste contexto todo, que registro aqui para mais uma rede de amigos, ainda que sem os laços do contato pessoal, todavia de amigos que partilham do prazer comum da leitura semanal desta coluna de Opinião (os leitores do Jornal A Comarca), para dizer: que saudade da minha rede de amigos que nos permitia, olho no olho, dividir sonhos e esperanças (e tínhamos sonhos e esperanças comuns) de um futuro melhor – coisa difícil de se achar hoje nas redes sociais, que se limitam (sem limites) a apenas julgar as pessoas e delas discordar, entre tantas outras coisas ruins hoje existentes nas redes, que não nos permitem mais dizer: “Meu amigo! Que bom que você está aqui!”.
Ademir de Souza (49 anos) é presidente do Diretório Municipal do PT e colaborador da coluna ‘Opinião’ do Jornal ‘A Comarca’.
Comentários
Ninguém comentou ainda. O primeiro comentário pode ser o seu.








