Cia Labirinto e Coro e Osso estreiam Cordel de Condão
Primeiro espetáculo conjunto será apresentado em seis datas
Do acervo · publicada originalmente em 19 de novembro de 2018
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 7 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2018Sempre às 20h30 dos próximos dias 23, 24, 25 e 30 de novembro, e 1 e 2 de dezembro, será apresentado o espetáculo ‘Cordel de Condão’, na Casa Pipa, evento que resulta da união entre a Cia Labirinto de Teatro e o Grupo Vocal Coro e Osso. O espetáculo é pago e mais informações podem ser obtidas na Casa Pipa ou pelo telefone (16) 991612657.
‘Cordel de Condão’ se faz de uma miscelânea da cultura brasileira, revisitada em diálogo com grandes referenciais – desde a música de Luiz Gonzaga, a literatura de Guimarães Rosa e a estética visual de Gilvan Samico até cânticos católicos e cantigas de plantadeiras de arroz, por exemplo. “Nessa brincadeira de ser condão, de ser cordel, de ser festejo, ergue-se um estandarte de força, honra e identidade da cultura popular brasileira”, sintetiza Juliano.
‘Cordel de Condão’ é indicado para maiores de 10 anos de idade. O espetáculo tem duração aproximada de 2 horas. Para isso, as pessoas terão o conforto de assentos na Casa Pipa, que fica na Rua Vicente Russo, sem número (antiga Escola da Boa Vista, no bairro Azul Ville). Sobre o espetáculo, A Comarca entrevistou os diretores cênico e musical, respectivamente, Juliano Jacopini e Luiz Piquera. A direção visual compete a Alexandra Mariani.
Há quanto tempo a Cia Labirinto e o Grupo Coro e Osso iniciaram a parceria?
Juliano – O Coro e Osso sempre foi uma grande referência artística para mim e também para os amigos da Cia Labirinto, constituindo-se numa potência de produção e pensamento cultural em Matão e região. Sempre houve o desejo de partilhar um processo criativo. Em maio de 2016, tivemos uma conversa para pensar caminhos de fortalecimento da Casa Pipa e o Luizinho Piquera selecionou um rol de canções brasileiras que motivaram a criação da dramaturgia de ‘Cordel de Condão’. Escrevi a peça e em julho de 2016 fizemos a primeira leitura, o primeiro encontro dos grupos.
Como o texto do Juliano se entrelaçou às canções selecionadas por você?
Luiz – A partir das canções apresentadas, o Juliano desenvolveu uma belíssima peça dramatúrgica, cujo desenvolvimento trazia um grande desafio para todos nós do Coro e Osso, inserido numa característica marcante do nosso grupo: a de sempre buscar fazer o que não sabemos.
Foi difícil?
Luiz – Não trabalhamos com o ‘difícil’, pois, na arte, criamos os problemas para depois inventarmos soluções. O Coro e Osso sempre investiu em pesquisas de linguagens, o que inclui a performance cênica, mas, desta vez, estávamos diante de uma lógica narrativa que localizava cada cantor como um personagem, exigindo um intenso trabalho de pesquisa corporal aliado às exigências técnico-musicais do canto coletivo.
As músicas ‘bagunçaram teu coreto’?
Juliano – Sim. E este é o motivo de eu ter composto a dramaturgia, pois fui afetado por isso. Cada canção tem uma história. Quando alinhavei as canções, todas juntas viraram uma outra história, que apanha referências da cultura popular brasileira, da literatura, do imaginário coletivo, fazendo nascer este condão.
A nova história oscilou muito do contexto das músicas selecionadas por você?
Luiz – Não. O que Juliano fez foi alargar o conteúdo das canções para o contexto narrativo, gerando um ambiente novo como se aquela canção tivesse sido escrita para aquele personagem ou para aquele momento da história. É como se ocorresse uma inversão mágica. Sabemos que tudo começou por uma sugestão de repertório, mas após a escrita de Juliano e o desenvolvimento do processo, a história se apropriou das canções como eixos temáticos.
‘Cordel de Condão’ trata do quê?
Juliano – Da saga de João, que é uma coleção de patrimônios históricos do imaginário cultural brasileiro. João é o símbolo do Humano-Brasil repetido numa narrativa revestida de magia em que amor e ódio e outros paradoxos podem habitar a mesma casa, pois aí se faz o completo humano, aí se faz o santo e o diabo, aí se faz a verdade e a mentira, aí se faz o milagre. João não é ele, mas seu povo! Buscar o amor liberto que lhe foi arrancado, o motivo que desencadeia sua heróica saga; por isso, João torna-se herói no eterno presente que ata as linhas da vida: os fatos do passado às esperanças do futuro, fundamental sentido à existência, não sua apenas, mas de seu povo. Afinal, herói se constrói pela crença do clã, formado por indivíduos diferentes entre si, mas com um traço de identidade coletiva em comum.
Que tempo vive João?
Juliano – João é um Cristo do agora, que faz sua Via Crucis caindo pela primeira, segunda, terceira e tantas vezes com o peso da cruz de seu povo – cangaceiros, caboclos, retirantes, viúvas, fazendeiros, que lhe confiam a redenção de uma maldição instaurada pelo demônio e que ele a promete sem saber o rumo da natureza das coisas que se revelam no caminho do mistério da vida feita do horrível e do belo, até o abalar da fé que guarda o acaso da intercessão do divino.
Tudo leva a acreditar que o lugar da Via Crucis de João é o Nordeste. É isso?
Juliano – Forte referência advinda das canções circunscreveu a atmosfera nordestina. Porém, não consigo definir João como algo que não seja brasileiro, ou melhor, humano. Esta é a grande definição! E se na encenação, na dramaturgia, há alusões ao sertão – especialmente por haver o atravessamento embebido na obra de Guimarães Rosa – este sertão do João é o de dentro da gente; por isso, sua saga é pelo Ser-Tão.
O que há de João no Coro e Osso?
Luiz – Creio que o mesmo que há de João em todos nós. João é feito da substância humana e traz em si o corpo e o sentimento de todos nós. O sonho de João sonha em nós.
Como foi receber Juliano e a Cia Labirinto? Outras parcerias se estabelecerão?
Luiz – Recebê-los foi um grande presente e é um prazer enorme tecer páginas da nossa história com artistas tão talentosos. Que o tempo nos traga novos condões.
E o que a Cia Labirinto tem de João?
Juliano – Acredito que consegui colocar no personagem João tudo pelo que a Labirinto se construiu até agora, pela coragem, pelo sonho, pelo desejo e pela intuição. Mas algo é mais especial: a Labirinto carrega a perseverança de João.
Entre vocês também ficou a vontade de outros trabalhos conjuntos?
Juliano – Certamente. São muitas pessoas e muito diferentes, o que torna tudo fantástico e desafiador. Sinto que o Coro e Osso já está na Labirinto como a Cia Labirinto está no Coro, não revelando cantores ou atores, mas artistas, pessoas que necessitam se expressar pelo canal libertador da arte. Novos trabalhos poderão surgir, inclusive de novas uniões dentro deste grupo que o ‘Cordel de Condão’ criou e que hoje faz parte da grande família que é a Casa Pipa. Este trabalho conjunto ampliou horizontes. Além dos atores e coristas, pude especialmente trabalhar junto a outras duas frentes de direção: com a sensibilidade e o conhecimento de Luiz Piquera e a coragem criativa de Alexandra Mariani, que, a partir das canções e da cena, potencializou a imagem do espetáculo, apontando uma concepção de duas dimensões para o teatro, que é uma arte, em essência, tridimencionalizada. Inventividade, não?
Ficha Técnica
Elenco
João – Thiago Gardini
Rosinha – Gabriela Ramos
Sa’lazão – Mabê Henrique
Mãe Menininha – Simone Marcondes
Anja Calunga – Ana Bacana
Anja Estandarte – Lilian Sampaio
Assum – Célio Gardini
Caboclos – Juliano Silva, Zeffa Rosa
Tecelã das Roseiras – Ellen Candido
Espera – Neia Pereira
Retirantes – Adriano Meira, Cris Biagioni, Gerson Bruno
Lampião – Ricardo Valzoni
Maria Bonita – Edna Gardini
Cangaceiros – Adriano dos Santos, Carol Rossi, Dedé Gabriel, Marcelo Queiroz, Rodrigo Bandeli, Vinha Bessan
Viúvo da Figueira – Douglas Aranha
Viúvas – Ana Bopp, Beatriz Lian, Cida Gandini, Inez Janini, Valderez Mendes
Vigário – Juliano Rossi
Fazendeiros – Ivan Ricci, Julio Cézar Miguel
Ilustrações – Juliano Silva
Bonequeiro – Thiago Gardini
Figurinos – Alexandra Mariani, Edna Gardini, Juliano Silva, Neia Pereira e Zeffa Rosa
Cenografia, Lighting Design e Direção Visual – Alexandra Mariani
Direção Musical – Luiz Piquera
Direção Geral, Direção Cênica e Dramaturgia – Juliano Jacopini
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