Cara da Fórmula 1 na temporada 2018 começa a se definir
Mercedes, Ferrari e RBR mostram que estão no páreo, até mesmo na opinião do diretor técnico da equipe tetracampeã mundial; quem ganha são os fãs, caso o equilíbrio se confirme
Do acervo · publicada originalmente em 8 de março de 2018
Fonte: Globo Esporte
· Leitura de 7 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2018Se Sebastian Vettel, da Ferrari, mostrou na terça-feira, primeiro dia da segunda série de treinos de pré-temporada, não existir, provavelmente, a vantagem técnica evidenciada por Lewis Hamilton, da Mercedes, nos testes da semana passada, nesta quarta-feira foi Daniel Ricciardo, da RBR, quem colocou mais lenha na fogueira em Barcelona, dando a entender que sua equipe pode entrar na luta com Mercedes e Ferrari.
Além de ser, pela manhã, o mais rápido em uma volta lançada, Ricciardo simulou à tarde um GP com grande sucesso. Confirmado o potencial do modelo RB14-TAG Heuer (Renault), como parece ser bem possível, é uma grande notícia para a F1.
Vale o discurso de sempre, extensivo à maioria dos esportes: treino é treino e corrida é corrida. Ninguém questiona. Mas a amostragem está crescendo, bem ou mal foram três dias de ensaios no Circuito da Catalunha, há uma semana, e nesta quarta-feira tivemos o segundo dia de atividades da segunda série.
Melhor: em condições de temperatura ambiente e de pista semelhantes às que os times enfrentarão ao longo do campeonato. A temperatura do ar variou de 10 a 18 graus e a do asfalto, de 12 a 29. A abertura do mundial será dia 25 em Melbourne, Austrália.
A informação que emerge do trabalho das dez escuderias da F1 nesse período de treinamento, levando-se em conta não apenas os tempos estabelecidos, é a de que Mercedes, Ferrari e RBR podem estar em nível próximo de performance. Nesta terça-feira, Ricciardo foi o mais rápido, utilizando pneus hipermacios, a novidade da Pirelli este ano, destinado, a princípio, apenas para os GPs de Mônaco e da Rússia. É o mais mole e veloz da gama.
O australiano registrou 1m18s047, melhor de todo o período até agora. A pole do último GP da Espanha, de Lewis Hamilton, foi 1m19s140. E as dificuldades técnicas demonstradas por Ricciardo e seu companheiro, Max Verstappen, até agora, este ano, parecem resolvidas. Ricciardo completou impressionantes 165 voltas no traçado catalão de 4.655 metros. O GP da Espanha tem 66 voltas.
O melhor tempo de Ricciardo, por si só, não seria por demais revelador se não fosse a forma convincente como o estabeleceu. O modelo RB14 do time austríaco demonstrou velocidade e confiabilidade, características básicas do sucesso na F1.
Ricciardo comentou o resultado promissor não apenas para a RBR na temporada como para os interesses da própria F1:
- A Mercedes ainda está um pouco à frente, mas nos encontramos bem próximos. Sobre a Ferrari, não sabemos com precisão onde está. A minha sensação é que estaremos bem mais pertos se comparado com 2017.
O diretor técnico da Mercedes, o inglês James Allison, pouco dado a declarações políticas, tem a mesma visão:
- Há três equipes rápidas e não há dúvida de que lutaremos com a Red Bull este ano. Está muito claro para mim.
Vitórias mais distribuídas
Em 2017, a Mercedes venceu 12 GPs, a Ferrari, cinco, e a RBR, três. Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, da Mercedes, largaram 15 vezes na pole position enquanto Sebastian Vettel, Ferrari, cinco. Ricciardo e o companheiro, Max Verstappen, nenhuma. Há indícios de que a distribuição de vitórias e quem sabe pole positions, este ano, possa ser distinta, mais igualitária. Seria ótimo para a F1.
Os testes desta quarta-feira confirmaram a expectativa de os engenheiros liberarem seus pilotos com os pneus mais macios. Restam dois dias de treinos antes do encerramento da pré-temporada e, apesar de a previsão meteorológica ser de o bom tempo continuar até sexta-feira, nunca se sabe. A dupla da Mercedes não usou os hipermacios, como Ricciardo, mas os ultramacios. Vettel e Raikkonen seguiram, no entanto, concentrados nos pneus macios.
Vettel completou 66 voltas de manhã com o modelo SF71H, tendo registrado na melhor passagem 1m19s541, com os macios, como dito, algo como meio segundo mais lentos que o supermacios que, por sua vez, ficam a meio segundo dos ultramacios. Entre estes e os hipermacios há entre cinco e sete décimos de segundo.
Se aplicarmos linearmente essa diferença ao tempo de Vettel, dando-lhe a diferença de um segundo e meio que teve a menos nos pneus, em um exercício hipotético, sua marca atingiria 1min18s, quase a mesma de Ricciardo. Ainda que não podemos bater o martelo que esse seria o tempo de Vettel, o raciocínio respeita princípios da F1, não é totalmente aleatório.
Façamos, pois, a mesma conta com os pilotos da Mercedes. Hamilton, à tarde, completou 90 voltas e na mais veloz fez 1m18s400. Bottas começou o dia com o W09 da Mercedes. Foram 85 voltas, com 1m18s560. Repetindo, ambos com ultramacios, diante de hipermacios de Ricciardo.
Já deu para ver que se tirarmos o meio segundo de diferença entre os hipermacios do australiano e os ultramacios dos pilotos da Mercedes os tempos se equivalem?
Quando Allison afirmou não ter dúvida de que há três equipes rápidas e a Mercedes irá lutar com a RBR, além da Ferrari, pode ter sido o resultado de análise semelhante. Ok, verdade, você tem razão. De repente a F1 desembarca em Melbourne e assistimos algo distinto. Pode ser, como não?
O Circuito Albert Park é o primeiro do calendário, ainda todos estão descobrindo seus novos carros, pneus, e a pista tem particularidades únicas. Nem sempre os mais rápidos lá ratificam seu potencial ao longo do campeonato. Mas, como mencionado, a amostragem dos treinos começa a ser representativa para Allison arriscar dizer, com todas as letras, que Mercedes, Ferrari e RBR devem disputar uma competição à parte.
Temos, ainda, dois dias de ensaios para ratificar a impressão inicial, baseada no conjunto do trabalho dos times, ou até mesmo revê-la, senão pelo menos colocá-la em dúvida.
O Alonso de sempre
De novo a McLaren chamou a atenção. Fernando Alonso deu somente 57 voltas no Circuito da Catalunha, menos de um terço de Ricciardo, que utiliza a mesma unidade motriz Renault, e quase um quarto, apenas, do acumulado pelos pilotos da Renault, Carlos Sainz Júnior, 88, e Nico Hulkenberg, 102. Sainz Júnior obteve 1m20s042, com médios, sétimo colocado, e o alemão, 1m20s758, com supermacios, 11º. Essas marcas propõem que não simularam uma classificação, ou seja, tinham boa massa de combustível no tanque. As diferenças para a RBR foram muito grandes, dois segundos.
O importante é que a McLaren trocou a Honda pela Renault e segue treinando pouco. E a STR, que ficou com a unidade motriz japonesa da McLaren e deu em substituição a francesa, segue no treino sem enfrentar maiores dificuldades, como tem sido, surpreendentemente.
Brendon Hartley, da STR, deu nesta terça-feira nada menos de 119 voltas, ou 62 a mais de Alonso, diferença equivalente a um GP da Espanha, mais ou menos. Tempo do neozelandês: 1m19s823, com hipermacios, quinto.
Oficialmente a McLaren MCL33 de Alonso teve um vazamento de óleo que obrigou os mecânicos substituírem a unidade motriz. Mas o asturiano permaneceu seis horas parado nos boxes, do fim do período da manhã até quase o término da sessão da tarde. E uma unidade motriz pode ser substituída em duas horas e meia. Isso é um atestado de que os problemas do carro parecem ser maiores.
O discurso de Alonso, depois do teste, denota sentir o golpe. Como assim, se ele afirmou já estar pronto para a corrida de Melbourne, ao dizer “não preciso do último dia de treinos”? Nesta quinta-feira será a vez de o seu companheiro, Stoffel Vandoorne, assumir o MCL33 para na sexta-feira Alonso encerrar a pré-temporada.
Se é como Alonso garante, não precisar mais treinar, mesmo sendo a organização que menos voltas completou, como era no tempo da associação com a Honda, será que Mercedes, Ferrari, RBR, bem como os demais, estão todos errados em visar manter seus pilotos na pista para ganhar o máximo de quilometragem?
Será que a McLaren e Alonso são tão magnânimos que não necessitam descobrir nada no projeto do MCL33 que já não sabem, com somente 38 voltas de Vandoorne no primeiro dia, terça-feira, e 57 de Alonso nesta quarta-feira? A saber, a McLaren acumulou nesses dois dias de treinos, onde as condições do meio ambiente e asfalto foram mais compatíveis com a realidade da competição, 95 voltas.
E os times que a McLaren, agora sem a Honda, diz poder enfrentar? A Mercedes, 352. A Ferrari, 286. A RBR, 295. As três deram três vezes mais voltas que a escuderia de Alonso. Pelo que o espanhol afirmou nesta quarta-feira, essa valiosa experiência tem peso menor. É uma lógica bastante pessoal. A sua excepcional competência como piloto contrasta, em várias ocasiões, a posturas como as de Barcelona nesta quarta-feira, onde não diz a verdade, facilmente verificável.
Será muito bom para a F1 se nesta quinta-feira Vandoorne puder dar mais de cem voltas, como se espera dos seus concorrentes, para permitir aos engenheiros da McLaren recolher dados importantes a fim de tornar o MCL33 mais rápido e, principalmente, confiável. Alonso teria meios para expor seu talento, o que não acontece há pelo menos três anos.
Comentários
Ninguém comentou ainda. O primeiro comentário pode ser o seu.








