Livro resgata 'lendas' do Bar do Gargalo

Publicação do jornalista Rogério Bordignon foi lançada na noite de quinta-feira (29)


Após muito contribuir para o registro da história de Matão por meio da linguagem fotográfica – em exposições e DVDs –, o jornalista e fotógrafo Rogério Bordignon traz agora um precioso retrato de parte da nossa sociedade através de seu primeiro livro: ‘Abra as portas, Gargalo - histórias da Terra da Saudade’, lançado na noite de quinta-feira (29).

O evento aconteceu no Salão Social ‘Antonio Fecchio’ da Sociedade Recreativa Matonense (Sorema). A publicação, que tem o lendário ‘Bar do Gargalo’ como epicentro de acontecimentos inusitados da provinciana Matão entre 1948 e 1971, teve origem numa conversa de Rogério com o amigo Fábio Fecchio, que pretendia homenagear familiares com textos sobre a família Cadioli e Matão.

Neste livro, Rogério também promove a condição de ‘figuras folclóricas’ serem personagens marcantes de um memorável contexto histórico-social e lança luz ao imaginário de quem não presenciou as peripécias do excêntrico Gargalo à frente do ‘Bar Central’ – bem definido por Rogério como ‘Fábrica de Lendas’. A seguir, a entrevista com o autor.

Como surgiu a ideia de escrever esse livro?

No dia 29 de setembro de 2016, me encontrei com o casal Cristiane Hubinger e Fábio Henrique Fecchio no Salão Social ‘Antonio Fecchio’ da Sorema. O nome ao local foi uma homenagem ao pai de Fábio, que presidiu o clube por dois mandatos – de janeiro de 1980 a maio de 1984. Fábio me disse que gostaria de fazer homenagem às famílias Fecchio e Cadioli, pois sua mãe, Marisa, tem também o sobrenome Cadioli. No entanto, ele não sabia que tipo de homenagem seria, mas possivelmente algo escrito. Afirmei que teria imenso prazer em fazê-lo. Uns cinco meses depois, Fábio me chamou à sua empresa, a aFHF Serviços de Tecnologia da Informação, e me informou que queria fazer a homenagem por meio de um livro que destacasse o ‘Bar do Gargalo’, na verdade, o ‘Bar Central’, que pertenceu a seu avô Aldo Vicenzo Cadioli, o Gargalo, de 1948 a 1971. Aceitei e, de imediato, lembrei-o de que José Amaral Farias tinha escrito historietas a respeito do bar e de pescarias que envolviam familiares e amigos de Gargalo, que nasceu no dia 6 de março de 1919 em Sustinenti (Itália) e faleceu no dia 11 de outubro de 1995 em Coxim (MS), para onde tinha ido pescar com familiares. Portanto, Gargalo comemoraria 100 anos em 2019. Ele foi sepultado em Matão no dia 12 de outubro de 1995.

Então, o Fábio queria mais do que as historietas?

Sim. Fábio queria um livro que tratasse um pouco da história de Matão, da qual seus familiares – tanto os Fecchio como os Cadioli – têm participação efetiva por diferentes motivos. Fui um entusiasta da publicação do livro por parte do ‘Seo’ Amaral, mas ele considerava que era melhor aguardar. Disse-me isso por anos, até que fez fotocópias e as distribuiu entre familiares e amigos de Gargalo. Em 2018, os escritos do Amaral se tornaram um livro, que teve o mesmo destino. Para a feitura do livro que escrevi, pedi as historietas aos familiares do ‘Seo’ Amaral e eles me cederam. Aproveitei aproximadamente 35%, 40% das historietas, algumas das quais também ouvidas através de depoimentos de familiares e amigos de Gargalo: Antonio Fecchio, Cyro Virgínio Modé Filho (Cyrinho), Getúlio Cadioli, João Leôncio Bocchi, João Martins, José Baptista Correia, Lauro Cadioli, Magali Terezinha Cadioli, Maria Luiza Cadioli Correia, Marisa de Fátima Cadioli Fecchio, Nilson João Cadioli, Paulo Sérgio Gabriel, Regina Beniamino Bellintani (Elda), Roberto Luiz Cadioli (Rô), Sebastião Mariano de Souza (Tião Tatá) e Walter Bottura (Teleco).

Outras fontes foram consultadas para obter mais informações?

Além do conteúdo anterior que serviu ao livro ‘Gargalo, Bilo e outros heróis’ (2018), de José Amaral Farias, também consultei os seguintes livros e publicações: ‘A saga da imigração japonesa’ (2005), de Adail Pedro; ‘De volta ao passado’ (1996), José Carlos Marcolino da Silva; ‘Uma história para Matão’: ‘Volume 1’ (1992), ‘Volume 2’ (1993) e ‘Volume 3’ (1995), de Azor Silveira Leite; ‘Matão de meu Deus’ (1987), de Januário Groppa; ‘Memórias da Fazenda - a história da Fazendas do Cambuhy’ (1996), de Luiz Marques Bueno; e as revistas ‘Introdução para uma história de Matão’ (1990), ‘Matão ontem e hoje’ (1991) e ‘Matão em várias dimensões’. Também pesquisei arquivo do Jornal A Comarca e no Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Como está constituída a parte visual do livro – fotos, ilustrações e diagramação?

As fotografias são oriundas de Adail Pedro, da Família Cadioli, do arquivo de Luiz Cezar de Oliveira, uma fotografia do acervo da Prefeitura de Matão e, principalmente, fotografias de autoria de Melford Monteiro Morante, o artista das fotos. Há imagem de um mapa de Matão, possivelmente alusiva ao ano de 1938, oriunda do arquivo de Roberto Chaine. A capa recebeu a ilustração de Marcínio Silva. A foto da contracapa foi feita por Bruno Cadioli Wetterich, sendo digitalizada e restaurada por Thais Castro. A diagramação, todo o acompanhamento de gráfica, bem como a obtenção do meu registro de International Standard Book Number (ISBN), foi feito pelo jornalista e designer gráfico Cássio Carrara, também autor do livro ‘O som da nova era’ (2018).

Como foi desempenhar a tarefa de relacionar fatos isolados – embora inusitados – ocorridos num bar com o contexto histórico e social de nossa cidade?

Antes de tudo, foi muito divertido. Todas as pessoas que me deram relatos sorriram praticamente o tempo todo ao se lembrar do que viveram naquela ‘Fábrica de Lendas’. Aliás, ‘Fábrica de Lendas’ foi o nome que sugeri ao ‘Seo’ Amaral para colocar no livro. Observei olhares felizes se voltando ao passado. Todos se lembram com muita alegria de uma Matão de outrora, com bem menos problemas do que os enfrentados nos últimos 20 anos, sobretudo no quesito insegurança e violência. Numa Matão menor, havia mais tempo para o convívio entre todos, pois a maciça maioria se conhecia. Crimes? Praticamente não aconteciam, apenas raríssimos fatos isolados. Havia discussões e até ‘quebra-pau’ político? Sim, mas se resolviam entre pessoas do bem. Por breves momentos, imaginei aquela Matão e gostaria de vivê-la. É possível! Basta nos unirmos.

Após produzir exposições fotográficas e dois DVD’s, além do trabalho jornalístico em A Comarca, fale sobre a experiência de lançar seu primeiro livro e da missão de registrar a história de sua ‘aldeia’, como você carinhosamente se refere a Matão.

É curioso! Geralmente, as pessoas me vêem com um equipamento fotográfico pendurado ao pescoço. Por este motivo e por ter sempre feito exposições, lançado dois DVD’s vídeo-fotográfico, recebido Menção e ter vencido duas vezes o Mapa Cultural Paulista, as pessoas me associam a um fotógrafo. Isso é natural, e me transformei num fotógrafo mesmo. Contudo, minha jornada desta vez é contar a história das pessoas de minha aldeia. Faço isso há quase 25 anos, sendo um ano no Jornal Espaço.10 que criei para a Espaço Matão Comunicações e há quase 24 anos para A Comarca. Faço isso por amor, no cumprimento de uma missão de vida mesmo. Lamentavelmente, nossa aldeia já perdeu pessoas de imenso valor, por terem partido para outro plano espiritual ou por mudança de municípios. Que saudade do padre Marcos Pião e do Lúcio Bocchi, que morreram. Que saudade das atuações dos promotores Raul de Mello Franco Júnior e Guilherme Athayde Ribeiro Franco, um em Araraquara e o outro em Campinas. Que saudade do Mário Biava, que decidiu levar sua esposa Toninha para morarem lá no Pará com a família da única filha Roberta. Que saudade de tantos outros! A cada um que nos deixa para ir a Deus ou para continuar suas jornadas em outros rincões, sinto muito o esvaziar da aldeia que habito. Mas ainda há muitas pessoas boas por aqui; muitos que contribuem para um amanhã melhor. Contem comigo!

Qual sua conclusão sobre o que este livro representa?

Há um fato curioso: há anos, tornei hábito fazer parágrafos com quatro, no máximo cinco linhas na Fonte Times New Roman, corpo 10, para A Comarca, visando dinamizar a leitura das minhas matérias. Levei esta praxe para o livro, pois todos os parágrafos têm cinco ou seis linhas, exceção ao Prefácio, que foi escrito por Fábio Fecchio. Consegui fazer isso em mais de 30.000 palavras. Antes deste livro, já tinha feito o texto do livro dos 100 anos da Bambozzi, com muita honra e alegria. Também participei com um conto e uma poesia de dois livros protagonizados por Eduardo Waack (‘Vozes e Saudade’ e ‘O melhor d’O Boêmio’). Faço letras de músicas, sendo que por duas vezes o pessoal da banda The Matones ficou em segundo lugar em festivais com letras minhas e três outras letras abriram os programas radiofônicos de Fábio Tieni e Belfort Monteiro Morante (filho de Melford). A terceira continua sendo a abertura de ‘Nosso Som’, apresentado por Cleber Dantas. Neste livro, além deste resgate histórico/familiar, pesquisei sobre Matão, desde seus primórdios, o que resultou em informações e dados relevantes sobre nossa cidade, tornando-se um importante documento histórico bem resumido. Muito obrigado a Fábio e Cristiane; ao Cássio, a todos que deram seus depoimentos e cederam imagens e, sobretudo, às pessoas que – em seus tempos, missões e formas de contribuição – contaram a história de Matão. Muito obrigado aos patrocinadores e apoiadores! Os agradeço em nome do presidente da Sorema, José Matturro. Este livro é dedicado a Fábio e Cristiane, famílias Cadioli e Fecchio; Norberto, Norma, Norival, Dalva, Ricardo e Raquel Bordignon; e Maria Aparecida Mingorance Antoniosi, que sempre me incentivou a escrever um livro. Ainda não me considero um escritor, mas também sigo neste caminho. Sem dúvida nenhuma, este livro consiste na maior matéria que já fiz. Que venham outros livros!

O autor

Jornalista e fotógrafo, Rogério Bordignon (MTb 27.106) nasceu em Matão no dia 13 de maio de 1972. Filho de Norival Angelo Bordignon e Dalva Vidal Bordignon, é irmão de Ricardo e Raquel. Formado em Comunicação Social (ênfase em Jornalismo) pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) em dezembro de 1994, estruturou o Jornal Espaço.10 para a Espaço Matão Comunicações, de março de 1995 a abril de 1996. Passou por três experiências como assessor de imprensa no meio público. Está em atividade profissional no Jornal A Comarca desde março de 1996.

Exposições fotográficas: ‘A Matonense no Paulistão - 1998 e 1999’ (em 2000); ‘Há Vida’ – homenagem a Segundo Massocato (2004); ‘Corte Atemporal’ (2006); ‘Um dia... Matão!’ (2008); além de duas mostras fotográficas, no Centro de Apoio a Juventude (Caju) e no Senai ‘Oscar Lúcio Baldan’, nas inaugurações de ambos.

Em março de 2008 lançou – simultaneamente à exposição – o DVD ‘Um dia... Matão!’. Em dezembro de 2010 lançou o DVD ‘Um dia... Corpus Christi!’. A exposição fotográfica ‘Noite, Água e Luz’ foi apresentada em 2012 e, em 2014, fez homenagem fotográfica ao saudoso padre Marcos Pião, denominando a exposição de ‘Que saudade, padre Marcos!’.

Obteve ‘Menção’ no Mapa Cultural Paulista 2005-2006 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘Há Vida’ (Segundo Massocato). Foi vencedor do Mapa Cultural Paulista 2009-2010 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘Chove Lava’, e do Mapa Cultural Paulista 2013-2014 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘É pênalti! O artilheiro, o goleiro e a mídia’.


Fonte: Sérgio Gabriel


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